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De laços e afetos

Paula Alzugaray | 2013

Podemos escolher viver em estado de guerra ou em estado de hibridação No prefacio do ensaio Os vínculos, Giordano Bruno diz ser lícito imaginar que uma mesma matéria transmigre em várias formas e figuras, de tal forma que, para amarrá-las continuamente umas às outras, seja preciso usar diferentes espécies de nós.O mesmo, lembra o autor, imagina-se sobre Proteus, o deus-marinho, ou Aqueloo, criatura do mar que tem a capacidade de se metamorfosear em animais ou elementos da natureza[1]. Acrescente-se, aqui, que a mesma qualidade pode ser atribuída à obra instalativa de Maria Nepomuceno, em sua capacidade de crescer, expandir e se recriar. Desde que travou contato com a comunidade de trançadeiras de palha de carnaúba de Sobral, no Ceará, Maria Nepomuceno adotou como ofício a tessitura de vínculos entre as coisas. Ao entender que discernimos melhor as qualidades das coisas por meio de suas correspondências com outras, a artista se ocupa da busca de elos e faz do entrelaçamento o gesto original de seu fazer artístico. Sua atividade se constrói com dois grandes grupos de matérias: aquelas que em sua forma e constituição apresentam propensão a criar laços e outras que, de forma complementar, são suscetíveis de serem atadas. Linhas, cordas, cabos e folhas de palha pertencem ao primeiro grupo, com poder de ligar, de forma ativa. Contas, esferas, jarros, tubos, canos e outros elementos vazados são as coisas suscetíveis por ela trabalhadas, dispostas a serem atravessadas. Em suas instalações, contemplam-se diversos gêneros de vínculos, vislumbram-se como as coisas se prendem umas nas outras: se são compatíveis, se tem distinções. A instalação é um organismo fecundo, um pequeno éden, que facilita a aproximação e a procriação das coisas. Tradicionalmente trabalhada pelo grupos de artesãs nordestinas, a palha trançada é um elemento nuclear das instalações da artista, incorporada em sua porosidade e permeabilidade, dando forma asuperfícies esféricas, ventosas de amplos diâmetros, intermináveis tranças, alongados tentáculos. A matéria adquire formas sugestivas, que podem chegar a remeter aos cabelos da medusa ou às barbas de Aqueloo. Assim como o deus-rio, filho de Oceano e de Tétis, as instalações de Maria Nepomuceno tem um movimento expansivo. Atravessame ganhamespaços, engolindo e incorporandomatérias pelo caminho, em processos que partem da observação da natureza. Dessa observação,nasce uma obra que se alimenta, cresce, envelhece, morre e renasce, como um organismo vivo. Assim se comportam as matérias dentro do corpo dasinstalações de Maria. Como os fios soltos e os conceitos abertos da obra de Hélio Oiticica[2], os vínculos entreas coisas que habitam seus trabalhos não são arrematados com nós.Assim ocorreu com a instalação “Tempo para respirar”, montada em 2012 na Turner Contemporary, em Morgate, Reino Unido, que, transmutada em um novo organismo, ocupou grande sala do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a partir de julho de 2013. Muito barro constitui a instalação concebida para o Schirn Kuntsthalle Frankfurt, na Alemanha. A esfera éo elemento nuclear da instalação,a exemplo de trabalhos anteriores. Manufaturadas em terracota ou produzidas industrialmente em matérias sintéticas, milhares de contas de tamanhos variados são sempre furadas para – a qualquer momento – serem atravessadas, tensionadas, tergiversadas por linhas, fios de palha ou cordas. Ou, simplesmente, para ostentar sua suscetibilidade ao vínculo. Da mesma família de objetos que as contas de terracota, tijolos de barro também compõem a instalação. Da família dos cobogós, esses elementos vazados – que na construção de uma casa são normalmente ventilados por ar, luz ou preenchidos por tubulações –, na instalação são atravessados por dezenas de metros de tentáculos de palha trançada. A relação entre as contas e os tijolos é estrutural. Os tijolos estão para as construções urbanas assim como a conta está para as instalações-organismos de Maria Nepomuceno. Ambos são unidades construtivas mínimas. A presença do tijolo no espaço instalativo vem ainda ressaltar a importância que a arquitetura – e sua escala – assumem hoje na obra da artista. Em um processo criativo movido pelo desejo de imersão na cor laranja, a artista funde matérias naturais e artificiais em um espaço híbrido de objeto, escultura, instalação e arquitetura. Seria interessante, então, pensar em que medida os magmas miscigenados de Maria Nepomuceno encontram correspondência no conceito sociocultural de culturas híbridas, no qual práticas que antes existiam de forma separada se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas[3]. Maria Nepomuceno tem como ofício a tessitura de vínculos entre as coisas. Defusões, intereseções e transações, ela extrai afeto, gentileza, simpatia, amor –qualidades universais, necessárias para a vida em comunidade.Com isso, sua obra ganha uma escala mais que artística e arquitetônica, sociocultural. Paula Alzugaray Julho de 2013



[1] Bruno, Giordano. Os vínculos. São Paulo: Fundação Bienal/ Hedra, 2012, pg 17
[2] Braga, Paula. Fios soltos: a arte de Helio Oiticica, São Paulo: Perspectiva, 2008.
[3] Canclini, Nestor Garcia. Culturas Híbridas. São Paulo: Edusp, 2003. pg 19
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